GOLPE DE 18 DE BRUMÁRIO
GOLPE DE 18 DE BRUMÁRIO
Enquanto Napoleão dirigia suas tropas no Egipto, o processo revolucionário completava dez anos.
Por toda a França sentia-se o efeito do movimento: instabilidades políticas, problemas económicos, crises sociais, disputas intensas pelo poder deixavam no ar uma ameaça constante de golpe de Estado.
Nesse cenário, para grande parte da população — sobretudo a burguesia —Napoleão era a esperança para pôr fim ao caos.
Diante do quadro de instabilidade interna, e sabendo que países inimigos preparavam nova ofensiva, Napoleão resolveu retornar secretamente à França em 14 de outubro de 1799.
Visto como defensor das conquistas da Revolução e com apoio total do exército, foi aclamado nas ruas de Paris.
Ganhou, então, o apoio político dos girondinos.
Poucos dias depois, Napoleão liderou o Golpe de 18 de Brumário, com o qual tomou o poder junto com outros dois aliados, onde a sua principal promessa era dar estabilidade ao conturbado quadro vivido na França. Nos anos seguintes, porém, acabou com várias das liberdades conquistadas, concentrando poderes.
Ao assumir o poder, Napoleão extinguiu o Directório e instituiu o Consulado, órgão formado por três cônsules, entre os quais se incluía. Em 1802, com uma nova Constituição, neutralizou o poder dos demais cônsules.
Dois anos depois, sem uma oposição política significativa, tornou-se cônsul vitalício; logo depois, recebeu do Senado o título de imperador da França, sendo coroado na catedral de Notre-Dame com o título de Napoleão I.
Napoleão Bonaparte procurou adotar várias medidas para conquistar a estabilidade.
No plano externo, venceu os austríacos na batalha de Marengo, em 1800, e, dois anos depois, assinou um acordo de paz com a Inglaterra (Paz de Amiens), neutralizando assim as ameaças estrangeiras.
No plano interno, um plebiscito garantiu amplo apoio popular ao Consulado e uma nova Constituição, que entrou em vigor em 1800.
Em 1801, firmou uma concordata com o papa Pio VII, resolvendo questões pendentes com a Igreja — as relações estavam estremecidas desde a promulgação da Constituição Civil do Clero, em Julho de 1790.
Napoleão conseguiu o apoio tanto dos camponeses, ao entregar-lhes terras tomadas ao clero, quando dos nobres emigrados durante a Revolução.
No âmbito da economia, que se encontrava em total desequilíbrio, criou o Banco da França e lançou uma nova moeda, o franco — que vigorou até 2001, quando foi substituída pelo euro, a moeda da União Europeia. Os sectores agrícola e industrial receberam financiamentos públicos para que se recuperassem dos anos de guerra.
Por outro lado, foi restabelecida a escravidão nas colónias — o que motivou a guerra de independência do Haiti.
Outra medida importante foi a organização do Código Civil, também conhecido como Código Napoleônico, em 1804.
Ele consolidava algumas aspirações burguesas que haviam motivado a Revolução em 1789, como a igualdade jurídica dos indivíduos, mas proibia os trabalhadores de se organizarem em associações independentes.
O crescente poder de Napoleão era visto como uma ameaça pelos governos absolutistas da Europa, como os da Áustria, da Prússia e da Rússia — temiam que, com a consolidação dos projectos burgueses, mudanças semelhantes fossem exigidas nos seus países.
Já para a Inglaterra e a Holanda, a estabilidade económica recolocava a França na disputa pela hegemonia no continente e por mercados consumidores.
A situação levou ao rompimento do acordo de paz com a Inglaterra, logo no ano seguinte.
A partir de então, sucessivas coligações foram formadas para combater o governo francês.
Bem equipados e treinados, os exércitos de Napoleão conquistaram sucessivas vitórias.
Com o apoio da Espanha, decidiram atravessar o Canal da Mancha para invadir a Grã-Bretanha — a Inglaterra, apoiada em uma poderosa frota naval, era o principal inimigo da França.
A invasão não se chegou a concretizar: a esquadra inglesa derrotou os franceses em 1805, na batalha de Trafalgar, no litoral da Espanha.
Em terra, os franceses derrotaram prussianos e austríacos em Ulm e Austerlitz.
Com isso, o governo de Napoleão extinguiu o Sacro Império e no seu lugar, formou a Confederação do Reno, mantida sob sua influência.
Até 1810, por meio de várias campanhas militares, os exércitos franceses ocuparam boa parte da Europa continental.
Holanda, Espanha e reinos da península Itálica, por exemplo, foram dominados pelo império napoleónico.
Em muitos desses territórios, foram impostos soberanos fiéis ao governo francês, quando não algum parente directo do imperador: José Bonaparte, em Nápoles e, depois, na Espanha; Mariana Elisa, na Toscana; Luís, na Holanda; Maria Anunciata, em Nápoles; Jerônimo, na Vestfáüa.
Em 1806, sem conseguir derrotar a Inglaterra, o governo francês decidiu decretar o Bloqueio Continental, com o objectivo de enfraquecer a economia inglesa.
Com essa medida, todos os países da Europa ficavam proibidos de realizar negócios com os ingleses ou mesmo receber navios britânicos nos seus portos, sob pena de terem os seus territórios invadidos.
Em 1807, Napoleão forçou os russos a assinarem o Tratado de Tilsit, pelo qual se comprometiam a aderir ao bloqueio.
Sentindo-se prejudicado, o governo russo rompeu o acordo logo depois, e voltou a abrir seus portos aos ingleses.
Em 1811, liderados pelo próprio Napoleão, 600 mil homens do exército francês invadiram a Rússia.
Chegaram com facilidade a Moscovo e encontraram a capital abandonada.
Tratava-se de uma estratégia russa para iludir o inimigo, valendo-se do vasto território e do inverno rigoroso.
Sem suprimentos, os franceses tiveram de bater em retirada em 1812, derivado ao frio e fome, tornaram-se presas fáceis para os russos: apenas 60 mil soldados sobreviveram de um exercito de 600 mil que haviam iniciado a campanha.
Derrotado e humilhado, começava assim o fim de Napoleão.
Nas áreas sob domínio francês foram implantados vários dos princípios consolidados durante a Revolução Francesa, sobretudo os pertinentes à ordem burguesa.
Muitos governos absolutistas, assim, acabaram abolidos.
A violência do domínio e da ocupação francesa sobre as populações conquistadas, entretanto, fez surgir movimentos de resistência, principalmente na Espanha e na Rússia.
O fracasso da campanha militar na Rússia foi decisivo para o declínio da política expansionista de Napoleão.
Os exércitos franceses também seriam derrotados na batalha de Leipzig, em 1813, por uma coligação formada por Prússia, Inglaterra, Áustria e Rússia.
Paris seria ocupada por tropas estrangeiras no ano seguinte. Pelo Tratado de Fontainebleau, Napoleão aceitou deixar o governo francês em troca de uma pensão e do domínio sobre a ilha de Elba, próxima à sua terra de origem, onde deveria permanecer exilado.
A dinastia dos Bourbon, comandada por Luís XVIII (irmão do rei guilhotinado em 1793), foi restaurada no governo francês.
O acto não foi bem aceito pela população, o que provocou grande instabilidade política.
Meses depois, Napoleão abandonou o exílio e voltou à França, aclamado pela população e com o apoio de seus ex comandados.
O novo rei, atemorizado diante da perspectiva da chegada de Napoleão a Paris, fugiu.
Napoleão estava de volta ao poder, no chamado Governo dos Cem Dias.
Foi combatido por uma nova coligação (a sétima), formada por Rússia, Áustria, Prússia e Inglaterra na batalha de Waterloo, na actual Bélgica, próximo à cidade de Bruxelas, foi definitivamente derrotado.
Preso, foi enviado para o exílio na ilha inglesa de Santa Helena, no Atlântico sul, onde morreu em maio de 1821.
Com a derrota de Napoleão, os governos vencedores procuraram restabelecer a ordem vigente na Europa antes da Revolução Francesa.
O marco desse processo foi o Congresso de Viena, realizado na capital do império austríaco, com a participação de representantes de Áustria, Prússia, Rússia, Inglaterra, Espanha, Portugal, entre outros— incluindo a França, representada pelo ministro Talleyrand.
No Congresso, decidiu-se restaurar as antigas dinastias absolutistas, bem como restabelecer grande parte das fronteiras existentes antes de 1789.
No lugar do antigo Sacro Império, surgiu a Confederação Germânica.
A Inglaterra recebeu compensações territoriais em várias partes do mundo: a ilha de Malta, no Mediterrâneo; a colónia do Cabo, na África meridional; o Ceilão (actual Sri Lanka), no sul da índia; a Guiana e algumas ilhas do Caribe, na América. Holanda e Bélgica foram unificadas, recriando os Países Baixos. O mapa da Europa e de parte do mundo colonial foi, assim, redesenhado, conforme os interesses dos países vencedores.
Alguns limites, porém, não foram respeitados.
A Áustria, a Prússia e a Rússia, por exemplo, ocuparam territórios que não lhes pertenciam na Polónia e na península Itálica
No Congresso, decidiu-se também a criação da Santa Aliança, uma organização para combater tentativas de subverter a ordem, tanto na Europa quanto nas colónias.
Ao longo do tempo, a organização actuou em diversos conflitos, como na Confederação Germânica e na Espanha.
A Espanha procurou usar as forças da Santa Aliança para reprimir os movimentos de emancipação nas colónias americanas.
A Inglaterra, porém, fez prevalecer o princípio de não intervenção, interessada na independência para ampliar seu mercado consumidor.
Comentários
Enviar um comentário